11 de novembro de 2006

EXPRESSO DO ORIENTE

Há aqueles que dão uma olhada no Público e ao fim-de-semana compram o Expresso ou o Sol. Também há os outros que devoram A Bola e a intercalam com o Destak. Eu vou mais longe. Tenho um fascínio por um outro periódico. Mensal, de carácter regional. Chama-se Expresso do Oriente. E, para quem não sabe o Expresso do Oriente é um jornal local gratuito distribuído ao domicílio nos bairros lisboetas (e lourenses) da Portela de Sacavém, Moscavide, Parque das Nações, Santa Maria dos Olivais e Marvila, tendo tido até distribuição no Beato nas suas edições iniciais.

O meu fascínio por este jornal deriva de muitos factores, que começam no seu grafismo de letras Word, e acabam no seu conteúdo, que todo ele gira em torno da agitada vida na zona oriental de Lisboa e seus arrabaldes. A título de exemplo, a notícia de capa para o mês de Novembro era a seguinte: "Serviços judiciais mudam-se para o Parque das Nações: O Ministério da Justiça vai concentrar as instalações dos tribunais de Primeira Instância de Lisboa no Parque das Nações, num complexo de escritórios com dez edifícios e 200 mil metros quadrados de construção".

Esta era secundada por mais três reportagens de peso: "Ser polícia é um gosto que nasceu comigo" (entrevista com a Sub-Comissário da 34.ª Esquadra da 2.ª Divisão da PSP de Lisboa em Santa Maria dos Olivais - página 8); "Ninho de ratos" (reportagem em torno de um ninho de ratos que se formou nas obras paradas de um parque infantil na Rua das Bússolas no Parque das Nações - página 10); e "A minha escola é o meu mundo" (entrevista a Ivan Ivanof, imigrante búlgaro, professor na escola EB 2,3 de Marvila - página 3). Ao lermos o jonral, sentimo-nos tocados pelo modo como nos aproximamos emocionalmente dos intervenientes das notícias do mês. A pequena introdução da página 8 faz-me pensar que conheco a Sub-Comissário Lúcia Silva desde o jardim-de-infância: "Em pequena brincou com bonecas. Hoje «brinca» com armas... Aos 28 anos, Lúcia Silva é Sub-Comissário da PSP e comanda 60 paramilitares." Para além das notícias de capa, o jornal oferece todo um conjunto de destaques que, é certo que menos importantes que os da capa, não ficam atrás na maneira como informam o desprevenido leitor que, desde a Expo'98, nunca havia reparado que aconteciam coisas na zona oriental de Lisboa .

Entristece-me, no entanto, que a parte criminal, tão profícua nesta zona, tenha direito apenas a uma coluna na página 12. "Casos de polícica", como é chamada, fala-nos este mês de três crimes: "Mulher agredida e sequestrada", "DVD's e CD's apreendidos" e "Contrafacção em Marvila", todos muito pouco desenvolvidos. Se bem que a nível criminal surja também na página 2 a notícia de uma mãe residente em Chelas que agrediu uma professora da Escola Básica do Primeiro Ciclo n.º 54.

Contudo, não são só as notícias que me fascinam. O espaço à opinião pública (numa secção inicial com cartas e e-mails, e mais à frente na chamada Página do Leitor) é dado aos mais variados quadrantes da sociedade que vão desde os idosos , aos velhinhos, passando pelos reformados. Comovente é o poema de José Barros, na página 2, que aparentemente terá sido enviado por um leitor (o próprio Sr. Barros?).

Aqui ficam as duas últimas quadras do poema Outono:

"(...)

Foram-se embora as andorinhas
Ficam mais tristes os beirais
Essas alegres e lindas avezinhas
Tudo deixam entregue aos pardais

É assim sempre a rodar
Todos os anos de igual maneira
Para o ano tudo vai voltar
Parecendo de facto uma canseira.

José Barros"

Diria que o podemos classificar como um novo Cesário. Parecendo simples, o busílis de todo o poema reside nos últimos dois versos. O que vai voltar? As andorinhas? Tudo sempre a rodar? A brisa que deixa de soprar e o vento que sopra mais forte? (acontecimento a que faz referência na 2.ª estrofe) E porquê uma canseira? Estará o Sr. Barros cansado de ver o tempo passar, incorrendo assim numa espécie de meditação sobre a vida e morte? Ou estará simplesmente cansado de que seja tudo "assim sempre a rodar"? E já agora, também depreendemos aqui um ódio pessoal aos pardais, que aproveitando-se da ausência das andorinhas, "essas alegres e lindas avezinhas", ocupam os beirais alheios deixando pessoas como o Sr. Barros muito tristes.

[Texto retirado. Ver explicação aqui.]

JGP
PS - Podem confirmar tudo o que aqui se disse no pdf do sítio oficial do Expresso do Oriente.

1 comentário:

Anónimo disse...

llllllllllllllloooooooooooooooollllllllllllllllllllllllll