5 de novembro de 2006

TEOREMA DA TELENOVELA

Teorema e não teoria, pois está provado.

Vi recentemente o último episódio da novela portuguesa Fala-me de Amor, na TVI. Depois de me autoflagelar durante algumas horas venho comunicar o que sinto. E sinto-me com fome, mas para além disso, também sinto alguma repulsa com uma colherzinha-de-chá (colherinha?) de vontade para cascar.
Não é que veja novelas. Vá lá, digamos que as vejo de soslaio quando passo pela sala a caminho do computador. Aliás, livrei-me dos Morangos com Açúcar há pouco tempo, tendo, inclusivé (com ou sem acento?) ultrapassado já a fase de abstinência.
A minha teoria, a qual confiantemente classifico já de teorema, foca os principais pontos que fazem da telenovela um subgénero menor, dentro do género "lixo televisivo". Por pontos:
1. Uma novela avança em tempo real do primeiro episódio ao penúltimo episódio, enquanto no último o tempo que passa é dado pela equação tempo = nº total de episódios / 2, em meses, i.e., numa novela de 46 episódios passam 23 meses no último episódio, enquanto que o tempo normal de um episódio corresponde a um dia.
2. Numa novela, tudo o que interessa acontece no primeiro e no último episódio, enquanto que do episódio 2 até ao penúltimo tudo o que se passa reveste-se de um carácter "palha", a que os entendidos se gostam de referir como "produto alimentar para ruminantes".
3. Numa novela as personagens não evoluem psicologicamente ou, quando evoluem, é drasticamente do "lado do mal" para o "lado do bem". Atenção, caso veja uma novela em que um "bom" se torne "mau", então não está a ver uma novela e encontra-se pura e simplesmente a meio de um sonho mau.
4. Numa novela não há preocupações com a coerência, nem com a existência de buracos no enredo. "Ah, então o Quimbé e o Zé Tó não se conheciam, e só têm a empregada de limpeza em comum, e aparecem aqui num café a conversar feitos amigos de infância? Eh pá, deixa tar, ninguém nota."
5. Os temas são sempre escolhidos de uma lista secretamente fabricada em 1854 por um escritor de folhetins holandês. Entre eles destacam-se 10: o grau de parentesco desconhecido (irmãos que não se conhecem, pais e filhos que não se conhecem), gémeos (ou, vá lá, irmãos) totalmente opostos nas suas personalidades, choque família rica-família pobre (casal misto não aceite pelas famílias, gravidez de um mesmo casal, inimizade antiga, ricos maus, pobres bonzinhos, classe média inexistente), choque entre gerações (pais e filhos que fazem faísca, tradição vs. evolução), mal entendidos (entre casais, irmãos, ricos e pobres), casalinho principal que se conhece no início da história e ao longo da novela se zanga no mínimo 12 vezes e que acaba inevitavelmente junto, existência de uma personagem "palhaço" (normalmente com um nome engraçado, género "Chico Pastor", "Zé da Burra", "Tó Pimpolho"), criancinhas (obrigatório), casamento e funeral, queda em desgraça (morte, prisão, ruína) ou redenção dos "maus".
6. Inexistência de uma história com princípio, meio e fim. O enredo topa-se à distância que é escrito dois dias antes das gravações, e ao sabor do vento ("Então, matamos este?" - "Não, a mãe morre e ele tem de ir para o estrangeiro"). Se há audiências, então acrescentam-se mais 23 episódios de palha onde acontecem coisas relevantíssimas como o problema de não haver nozes para o bolo de anos de alguém, ou um qualquer grave acontecimento como o torcer de um pé de um indivíduo.

Existem muito mais pontos neste meu Teorema da Telenovela, mas já é tarde e os meus olhos já não são como o antigamente. Por isso, pensem neles vocês, enquanto esperam que acabe o intervalo da Floribela.

Uma última coisa que gostava de deixar no ar. Já repararam que quando alguém tem de desaparecer (por saída do actor ou por outra razão qualquer) se utilizam as mais esfarrapadas desculpas? Em Fala-me de Amor acontecia episódio sim, episódio não. Em dois episódios a filha de um casal vai viver para Londres e não volta a aparecer, num curto espaço de tempo arranja-se maneira de matar a protagonista que durante 400 episódios andou em busca do filhinho perdido, a empregada tem de ir para França de repente devido a uma doença súbita da mãe, a miúda violada foge para Milão a meio da noite muito perturbada (mas só o faz 200 episódios depois da violação), etc...

Portugal é único país da Europa (empatado com a Madeira) onde telenovelas são líderes de audiência e passam em horário nobre. Porquê Nun'Álvares? Porquê ganhar Aljubarrota? Só para fazer pirraça?

JGP

PS - 1. Teorema, s.m. Qualquer proposição que, para ser evidente, precisa de demonstração. [Do Latim theorema]
2. Teoria, s.f. Conhecimento limitado a princípios ou à especulação, sem passar à prática. Conjunto de princípios fundamentais de uma arte ou ciência. Sistema ou doutrina acerca desses princípios. Hipótese. Noções gerais. Utopia. [Do Latim theoria]
3. TVI, s.f. Matéria fecal. Fezes que o intestino normalmente expele pelo ânus. Excremento. Dejecto. Porcaria. [Do Latim merda]
4. Autoflagelar, v.t. Bater-se a si próprio com flagelo. Castigar-se. Torturar-se. Incomodar-se, enfadar-se. [Do Grego autos e do Latim flagellare]
5. Cascar, v.t. e i. Bater, dar pancadas. Retorquir com azedume. Chegar, carregar, afinfar. [Do Castelhano cascar]
6. Cassidários, m. pl. Tribo de insectos coleópteros tetrâmeros, a que pertence a cássida. [De cássida, por sua vez, do Latim cassida]



PPS - Tenho pachorra de pesquisar o significado destas palavras mas, ao mesmo tempo, ignoro as dúvidas relativas à formação do diminutivo do substantivo colher e da acentuação da palavra inclusivé. Intrigante.

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