8 de janeiro de 2009

GAMEIRO PAIS APRESENTA: TRIVIALIDADES DO BIZARRO V

Olá a todos. Vamos a isto, então.

A saga de hoje não vem da Grécia, nem fala de mortes estranhas. Fanáticos da Grécia Clássica e perversos sádicos, hoje não é o vosso dia. No entanto, se gostam tanto de informática como de xadrez e de manequins com roupas turcas preparem-se para a maior história de sempre. Se não gostam, preparem-se para a maior história desde há 20 minutos.

Em finais do século XVIII, o senhor Wolfgang von Kempelen, um inventor austro-húngaro, decidiu por mãos à obra e construir um robot que jogasse xadrez tão bem que pudesse rivalizar com um humano. Kempelen apresentou-o um tempo mais tarde à Imperatriz Maria Teresa de Áustria com resultados fantásticos. Pela primeira vez nas história uma máquina apresentava capacidade cognitiva, estava dado o primeiro passo para a inteligência artificial.

A maquineta consistia numa espécie de cómoda onde de um lado estava sentado um boneco mascarado de turco, descrito na altura como um feiticeiro oriental, com um turbante, olhos cinzentos e bigode e barba pretos. Este manequim estendia uma mão e deslizava as peças do xadrez, jogando exímiamente frente-a-frente com um opositor humano. A outra mão do boneco segurava um cachimbo turco.

O sucesso do Turco foi imediato! A fama na corte austríaca rápido se transformou em fama por toda a Europa. França, Inglaterra, Alemanha, a máquina viria a vencer muita gente, incluindo o melhor jogador de xadrez da altura François-André Philidor. Em Londres terá derrotado Jorge III de Inglaterra, e na Aleamanha defrontou Frederico, o Grande, da Prússia. Também Napoleão caiu às mãos da geringonça, não sem antes ter tentado três vezes uma jogada ilegal para tentar baralhar a máquina. À terceira o Turco ter-se-á irritado e com um movimento do braço terá atirado com as peças ao chão. Napoleão riu-se e recomeçou um novo jogo. Perdeu, e foi a resmungar para Paris. Já nesta cidade, a maquineta derrotou também o conhecido Benjamin Franklin, também amante do desporto.

E agora é a altura em que vocês perguntam? Onde é que está o bizarro aqui? Isto são só trivialidades, pá. OK, então aqui vai. O bizarro da história é que... o Turco tinha debaixo do tabuleiro de xadrez um pequenino anão (ou uma pessoa de baixa estatura) que controlava as mãos do boneco. Dentro do pequeno armário, que Kempelen e os futuros donos da máquina abriam sempre antes da exibição, estava um anão, caraças! Um anão exímio no xadrez que, através de um jogo de espelhos, de umas peças a fingir rodas-dentadas, e de um banco que deslizava para a frente e para trás (que utilizava para se esconder consoante se abria a porta direita ou esquerda da cómoda) nunca ficava visível ao público.

Napoleão, Franklin e Philidor (o melhor jogador de xadrez da altura) foram derrotados por um anãozinho. Kempelen havia de morrer sem ninguém descobrir a façanha. Mais tarde a máquina (e o seu segredo) acabariam por chegar às mãos de Johan Nepomuk Mälzel (um músico da Bavária com jeito para o negócio).

Com o mesmo anão, ou com outra pessoa, a aldrabice continou a dar rios de dinheiro por toda a Europa, continuando a defrontar as mais variadas celebridades. Mais tarde acabou por ser vendida ao Príncipe de Veneza, Eugénio de Beauharnais. Mälzel arrependeu-se, recomprou-a pagando ao príncipe com as receitas dos espectáculos. A coisa não correu bem, Mälzel faliu e foi processado pelo príncipe, tendo fugido para a América.

No Novo Mundo, Mälzel levou consigo a máquina mas não o anão. Pagou as despesas de transporte de um novo jogador para a tramóia, enfiou-o na máquina e voltou a fazer rios de dinheiro à custa não só de papalvos como de gente inteligente como Edgar Allen Poe ou Charles Carroll, um dos assinantes da Declaração de Independência dos EUA. O único problema é que na falcatrua americana a pessoa que controlava o jogo não era um jogador especial como o anão da Europa. A máquina acabou por só fazer jogos já com uma disposição pré-estabelecida, para evitar perder.

Mälzel voltaria a viajar para a Europa, mas morreria pelo caminho. O Turco foi de mão em mão (piloto do navio, um amigo de Mälzel chamado John Ohl - que o leiloou, arrependeu-se, compareceu no leilão, e compro-o de novo ele próprio; e ainda o Dr. John Kearsley Mitchell - médio de Egar Allen Poe e fã da coisa). O Turco acabaria no Museu Chinês de Charles Wilson Peale em Baltimore, Maryland, EUA. Um incêndio em 1854 destruiu-o por completo, à excepção do tabuleiro de xadrez e das peças.

Por incrivel que pareça, viajando meio mundo, testado por incontáveis pessoas, visto por cientistas (escrevendo-se variados livros científicos sobre ele), o Turco esteve 84 anos a aldrabar o mundo. A fraude, mesmo estando num museu à vista de todos não foi descoberta até 1857, 3 anos depois da sua destruição!

E assim foi feito um dos maiores embustes da história, trapaça brilhantemente executada por uma mão cheia de pessoas e que enganou tudo e todos. O suposto feito dos charlatães responsáveis pela coisa só seria devidamente alcançado no século XX em 1997, pela Deep Blue, máquina da IBM capaz de derrotar os melhor jogadores de xadrez do mundo.

Resumindo e concluindo, turcos não jogam bem xadrez, só se tiverem um anão debaixo da túnica. Se não percebi mal, acho que é isto que devemos reter.

3 comentários:

JGP disse...

Será o maior post de sempre?

VNS disse...

Maior que o post com a fotografia do Chile?

JGP disse...

É possível. Mas se houver mais fotografias com calos nos pés ou dentes podres, pode ser que se bata o record de novo. Estou a pensar em pôr aqui uma versão integral d'Os Lusíadas.