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17 de julho de 2008

RUAS ESTRANHAS DE LISBOA II: EDIÇÃO TRAVESSAS

Em Lisboa as travessas são dos arruamentos com nomes mais estranhos. Há de tudo, desde a famosa Travessa da Espera no Bairro Alto, e onde normalmente se espera por pessoas, até coisas como a Travessa da Peixeira ou a Travessa da Rabicha.

Uma das 360 travessas de Lisboa é a Travessa da Silva em Belém. E este é mesmo o nome oficial, não é só Travessa da Silva, é Travessa da Silva em Belém, não vá alguém confundir com outra qualquer Travessa da Silva (que por sinal não existe em Lisboa) ou então alguma senhora que se chame mesmo Travessa da Silva.

Os quartéis também são assuntos de predilecção das travessas. Existe uma Travessa de Cima dos Quartéis na freguesia de Santa Isabel, e uma Travessa Debaixo dos Quartéis também na mesma freguesia. Já na Ajuda, existe uma Travessa Detrás dos Quartéis.

Uma das mais engraçadas é a Travessa do Fala-Só, que aparentemente ganhou o seu nome por ter sido muito frequentada por um cidadão que tinha por hábito... falar sozinho. Fica ao pé da Calçada da Glória, já a chegar às Taipas.

Sem ter nada a ver, temos também a Travessa do Jogo da Bola. Desenganem-se aqueles que acham que é aqui que estam os estádios de Alvalade e da Luz, isso chama-se Segunda Circular. Esta travessa nem sequer tem nada a ver com futebol. O jogo da bola, ou jogo da péla, é daqueles jogos pré-mundo com televisão e consolas em que as pessoas se divertiam na rua. Acho que é uma coisa parecida com o jogo da malha.

E o prémio final para a travessa mais estranha vai para a: Travessa do Recolhimento de Lázaro Leitão! Também me arrisco a dizer que, com 36 letras, é provavelmente a rua com nome mais comprido de Lisboa. E quem foi Lázaro Leitão e porque se recolheu? Lázaro Leitão Aranha, apenas Lázaro para a família, era o secretário de embaixada de D. João V. Em 1742 comprou um edifício previamente ocupado por frades barbadinhos italianos, e fundou um recolhimento. Os recolhimentos eram uma espécie de orfanatos, mas para viúvas "donas de bom nascimento, caídas em pobreza". Havia, segundo relatos, 7 recolhimentos em Lisboa, entre os quais o de Lázaro Leitão, que acabou por dar o nome a travessa onde se localiza. A instituição ainda hoje funciona.

E assim ficamos. Talvez para a próxima se fale do Cunhal das Bolas, quando isto estiver com menos visitas e tivermos de baixar o nível para as subir.

PS - A imagem é uma travessa, sim.

16 de maio de 2008

RUAS ESTRANHAS DE LISBOA I

Lisboa tem quase 3 500 arruamentos, entre adros, alamedas, altos, arcos, autoparques, avenidas, azinhagas, bairros, becos, boqueirões, cais, calçadas, calçadinhas, caminhos, campos, campus, caracóis, casais, circulares, corredores, costas, cruzes, cunhais, encostas, escadarias, escadas, escadinhas, escolas, estradas, jardins, largos, outeirinhos, paços, paradas, parques, pátios, poços, praças, pracetas, rampas, regueirões, rochas, rossios, rotundas, ruas, sítios, telheiros e travessas. E melhor do que isto, Lisboa tem uma pessoa que aproveita uma constipação de dois dias em casa e vai ver todos os tipos de arruamentos possíveis: eu.

Aqui inicio a nova rubrica Ruas Estranhas de Lisboa. Tcharã! É totalmente aberta a participações de qualquer um dos colaboradores e visa apresentar receitas inovadoras de bacalhau. Não. Estou a brincar... É mesmo ruas de Lisboa com nomes estranhos...

E aqui vou eu. O problema de hoje são as ruas com nomes estrangeiros.

Em primeiro lugar a Rua Eduardo Schwalbach. Rua situada em Benfica que se inicia na Rua da Casquilha e acaba na Rua Comandante Augusto Cardoso.

Não é que a rua tenha assim uma coisa muito estranha. É só um nome de pessoa, neste caso de Eduardo Frederico Schwalbach (1860-1946), português de origem alemã, lisboeta, jornalista e dramaturgo.

O estranho mesmo é alguém morar nesta rua e conseguir explicar onde mora. Imaginem o Sr. Pires na Repartição de Finanças:

- Já tenho o seu BI e as duas fotos tipo passe. Preciso, então, da sua morada.
- Muito bem, Rua Eduardo Schwalbach, lote 456, 4.º Frente.
- Rua Eduardo Esvalquê?
- Schwalbach.
- Ah, Esvalbaque. Muito bem. Até à próxima, apareça sempre.

E lá vai o senhor dos correios dizer: "Ora cá está mais uma para a Eduardo Esvalbaque. Ó Lino, põe mais esta no monte das ruas que não existem."

O mesmo se passa com a Rua Issan Sartawi (1924-1983) também em Benfica. Começa na Rua da Venezuela e acaba na Estrada da Circunvalação, mesmo no fim do mundo de Lisboa. O sr. Sartawi foi um líder palestino assassinado no Algarve, também por palestinos. Mal sabiam eles que assassinando-o estavam a condenar umas dezenas de lisboetas a repetirem enfastiadamente frases como "Sim... Issan, com dois S's e an no fim." ou "Sartawi com duplo vê", para depois verem as suas cartas serem endereçadas para a Rua I de Sanssar Taui que não existe.

Por fim (e no fim é que normalmente vem o melhor) reservei-vos uma pérola. O melhor arruamento de Lisboa em termos de dificuldade de pronúncia. Nem lhe chamaria "dificuldade de pronúncia", mas sim "impossibilidade de pronúncia".

Trata-se da Rua Prof. Georges Zbyszewski (1909-1999), geólogo de ascendência russa, de nacionalidade francesa, mas viveu quase toda a vida em Lisboa. A rua fica em Carnide, entre a Rua António Quadros e a Rua Prof. Jorge Campinos e foi-lhe dado este nome em 2005.

O senhor faleceu em 1999, e durante 6 anos procurou-se uma rua sem nome para o homenagear. Mas não podia ser uma qualquer. De acordo com a Comissão Municipal de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa teve-se "o cuidado de escolher um arruamento sem numeração de polícia [i.e. que não viva lá vivalma] para evitar erros de pronúncia ou de escrita de endereço no topónimo." Evitar erros de pronúncia ou de escrita é coisa que deve acontecer muito com nomes com 10 letras, mas apenas 2 vogais.

Vá lá, desta vez a coisa foi bem feita. E ainda bem que não vive lá ninguém, porque antes da rua se chamar Prof. Georges Zbyszewski era conhecida por Arruamento Transversal ao Impasse 6 à Rua Fernando Namora. Devia ser chato.

(conversa em 2005)
- "Eu moro na Avenida de Roma e tu?"
- "Ah, eu moro em Carnide..."
- "A minha avó também lá mora, no Largo da Luz. És de lá perto?
- "Não. Eu cá comprei uma vivendinha no Arruamento Transversal ao Impasse 6 à Rua Fernando Namora, mas não tenho muitos vizinhos. Acho que me vão mudar o nome da rua para Rua Prof. Georges Zbyszewski, para simplificar."
- "Ah... Então se calhar qualquer dia mando-te um postal. Zbyszewski é com z ou com s no meio?"
- "É com os dois."
- "Ok. Até à próxima."
- "Espera, espera. Não te esqueças que Georges é com S no fim."

PS - Existem mesmo arruamentos como Autoparque Roma, Bairro Novo, Campus de Campolide, Caracol da Graça, Casal de Colares, Corredor da Torrinha, Costa do Castelo, Cruz de Santa Helena, Cunhal das Bolas, Encosta das Chagas, Escolas Gerais, Paço da Rainha, Poço do Borratém, Rocha do Conde de Óbidos e Sítio do Calhau. Existe também um único arruamento sem nome de rua, travessa, etc: chama-se apenas Triste Feia, e fica na freguesia dos Prazeres, ali no final da Rua das Janelas Verdes perto do Paradise Garage. Ah, e é mesmo Cunhal das Bolas, não me enganei nem vos estou a endrominar.