13 de dezembro de 2009

GAMEIRO PAIS APRESENTA: TRIVIALIDADES DO BIZARRO VI

Olá gentes! O Trivialidades do Bizarro está de volta, e desta vez não vos vai falar de secadores elétricos nem de pastilhas Gorila, até porque até agora ainda nem sequer falámos disso e depois era estranho.

Vamos falar de marisco. E que bom que é o marisco! Exceto perceves ou percebes ou lá o que é aquilo. Pollicipes pollicipes de nome científico. Não gosto de pollicipes pollicipes! É impossível abrir aquilo sem fazer chavascal, e depois de se conseguir não tem nada de jeito lá dentro. Portanto falaremos de marisco, mas não de percebes, se fazem favor. E agora que penso nisto, se calhar vamos só falar de lagostas, que infelizmente não tenho nenhuma trivialidade à volta de sapateiras ou de conquilhas.

E a primeira pergunta que todo o mundo faz quando ouve falar de lagostas é qual? É esta: e o que é que lagostas têm a ver com relações internacionais do século XX?

À partida nada. No entanto, se recuarmos até aos loucos anos 60, descobrimos a pouco conhecida Guerra da Lagosta: uma quase-guerra entre a França de Charles de Gaulle (ou como diria AV, Frank de Boer) e o Brasil de João Goulart. E digo quase-guerra porque tiros... "viste-los".

Em 1961, quando definir "águas territorias" era tão vago como definir hoje em dia o que é a música house, pescadores franceses chicos-espertos decidiram cirandar pelas águas circunvizinhas da costa pernambucana e apanhar uma lagostinha ou outra. Alertada por pescadores brasileiros nada parvos, a Marinha do Brasil rapidamente se dirigiu ao local onde apanhou os francius com a boca na botija. Razão para citar Rita Lee: "Que flagra!"

Os pescadores foram "convidados" a sair e quando tudo aparentemente tinha acalmado, a coisa salta para a comunicação social brasileira, a que lá do outro lado do Atlântico chamam "os mídia". Num ápice, a escaramuça com os pescadores na imprensa transformou-se na pomposa (e ao mesmo tempo sarcástica) Guerra da Lagosta. Em resposta, o governo fracês acolheu os pescadores como heróis e procedeu de imediato a medidas diplomáticas para forçar o Brasil a ceder.

Temendo que a França estivesse a preparar-se para por em causa a hegemonia do Brasil na região, os brazucas fizeram finca-pé de tal forma que a França decidiu levantar o casaco para mostrar a pistola no coldre. Em pouco tempo um contingente militar naval francês deslocou-se para o Atlântico Sul, o que fez com que o Brasil respondesse com a movimentação da Esquadra brasileira para perto de Pernambuco, apoiada pela Força Aérea. Em terra o Exército mobilizou-se igualmente na região.

Quando a situação parecia ir descambar os esforços diplomáticos acabaram por surtir efeito, mas não para o lado francês. A ideia francesa (inspirada numa ideia lançada pela sua própria imprensa) era a de que era inquestionável a legalidade da pesca da lagosta já que os pescadores podiam apanhar das águas internacionais o que bem entendessem, já que o que vigorava na altura era a ideia de que o fundo do mar pertencia à nação (neste caso, o Brasil) mas que as águas por cima eram internacionais.

Estava lançado o caos e também, diga-se, o ridículo. O debate agora incidia sobre se as lagostas andavam ou nadavam. Caso andassem era ilegal apanhá-las do fundo do mar, caso nadassem era legal. O grave problema nem era as lagostas serem parvalhonas ao ponto de se deixarem apanhar em vez de ficarem quietinhas no fundo. O problema era que a lagosta em si não andava nem nadava. Ela saltava através de impulsos, e regressava passado um pouco ao fundo. E como é lógico, o Direito Internacional não cobria a bicheza que andava aos pulos no fundo do mar.

Depois de comissões científicas e muito parlapiê (ou bate-papo como se diz lá em baixo) na área da oceanografia, os fraceses pareciam levar a melhor, já que era inquestionável que apanhavam as lagostas enquanto estas não estavam em contacto com o fundo do mar, legalmente brasileiro.

Foi aí que o Almirante Paulo Moreira da Silva, delegado brasileiro, tomando a palavra, se dirigiu aos altos representantes da diplomacia francesa e eloquente matou a questão. Para o Brasil aceitar a posição francesa de que as lagostas eram tal e qual os peixes, mas com a pequena diferença de se deslocarem aos saltos no mar, a comunidade científica internacional deveria começar então a olhar para o canguru como uma ave que se locomove aos saltos.

Com uma frase apenas calou a potência, toda a gente arrumou os papeis e foram para casa ter com suas esposas. Os brasileiros ficaram com a mariscada para eles, nunca mais se falou nisto da Guerra da Lagosta e hoje já ninguém duvida de duas coisas: as lagostas não são peixes e os franceses são obviamente vegetais, nomeadamente nabos.

Até à próxima!

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