4 de maio de 2008

QUEDAS

Uma das coisas que mais me faz rir é pessoas a cair. Chamem-me básico, chamem-me o que quiserem, mas não há nada melhor do que ver alguem a escorregar e a estatelar-se ao comprido no chão.

No centro comercial Vasco da Gama experienciei a melhor queda de todo o sempre. Uma senhora, lampeira e decidida a dar show achou por bem entrar numas escadas rolantes virada de costas para as mesmas, enquanto se despedia de não sei quem acenando e gesticulando euforicamente. Conclusão, o maior espalho em escadas rolantes de que há memória. Não foi particularmente doloroso. Até porque a senhora se levantou e riu-se. Foi simplesmente um daqueles momentos em que tudo pára, o mundo fica a preto-e-branco e apenas a senhora e as escadas rolantes ficam a cores. Segundos antes, enquanto a vítima ainda gesticulava, eu, em posição privilegiada (sentado numa das mesas da parte dos restaurantes) pressenti que ia presenciar um momento histórico. Não me lembro bem quem avisou quem, mas quem me acompanhava também estava virado para lá. Julgo que ainda trocámos um "Olha tu queres ver que ela vai cair..." E caiu. E foi esplendoroso. Câmara lenta. Daqueles em que se consegue ver a expressão "Ai Jesus! É desta que eu me vou!" na cara da pessoa. Depois, o emaranhado de pernas, sacos e mala de senhora. Uma mão que tenta desesperadamente agarrar o corrimão, outra que tenta amparar a queda. Os pés no ar como que a fazer um pino-ponte. E o bruá que ecoa por toda aquela área do estabelecimento comercial. Tudo o resto é relegado para segundo plano, e ver aquela senhora a cair nas escadas rolantes passa a ser o objectivo único de 20 anos de existência.

Normalmente as quedas são rápidas (de décimos de segundo a 1 segundo, vá), mas aquela foi especialmente comprida. Uns 4 ou 5 segundos, já que as escadas rolantes propiciam uma queda por patamares. Sim, degrau a degrau. E todo o movimento corporal numa queda em que o próprio piso está em movimento é algo que qualquer amante de quedas deseja alguma vez na sua vida observar. Nem que seja ele próprio o autor da peripécia.

E isto leva-nos a outro episódio. Sim, como qualquer pessoal normal, também já dei o meu trambolhão. Corria o ano de 2000, um par de anos depois da Expo '98 e da reabertura como Parque das Nações, a minha turma do 7.º ano fez uma visita de estudo ao Pavilhão do Conhecimento num dia chuvoso de Inverno. Quem já foi ao Pavilhão do Conhecimento conhece a entrada que é feita por uma enorme rampa em mármore. Ora tal como com o azeite, a água não combina bem com pisos em mármore e em declive. Como é óbvio, não tralhei feito parvo como qualquer pessoa normal. Tinha de o fazer de forma especial. Face a uma rampa molhada o que é que putos de 12 ou 13 anos fazem? Armam-se em patinadores artísticos ou praticantes de skimming. Eu fui pela terceira via. Enquanto tudo à minha volta deslizava pela rampa de mármore molhada, decidi que seria divertido experimentar e sentir aquela adrenalina que dá quando se é puto e se desliza em grandes rampas de mármore em dias chuvosos e traiçoeiros. Resultado: a partir desse dia o meu traseiro ganhou uma bela nódoa negra para recordar, além de que deixou de confiar plenamente no meu cérebro aventureiro e digamos... parvo. Seguiu-se uma gargalhada geral em meu torno, a qual não teria sido nada sonora se não estivesse, exactamente nesse momento, uma excursão de 450 putos da primária vestidos de bibe e de mão dada a passar mesmo à frente da entrada do pavilhão. Levantei-me a custo e com o cóxis dorido, aproximei-me do final da rampa e fiz a vénia mais digna que consegui, enquanto por dentro dizia impropérios que nem eu próprio julgava conhecer. Conclusão: foi divertido, e desde aí decidi vingar-me rindo-me a bom rir quando alguém cai ao meu lado. Especialmente senhoras que não sabem que entrar de costas em escadas rolantes costuma resultar em quedas aparatosas. Aí bato palmas mentalmente, com muita, muita força, esforçando-me por parecer um grupo de 450 putos da primária de bibe e de mão dada.

PS - A fotografia que ilustra isto foi tirada pelo meu telemóvel, na sala dos computadores da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. O pormenor do "... poderá originar violentas quedas" é maravilhoso.

3 comentários:

DGC disse...

Melhor que a queda no pavilhão Atlântico só a queda do Fausto pela quinta abaixo levando canas e tudo à frente. Infelizmente não tive o prazer de presenciar mas parece que foi deveras emocionante.

Fases como a Lua disse...

Descobri este blog por acaso e achei tanta piada ao nome, que o adicionei aos favoritos.

Saudações bloguistas d'outra Gameiro!

tiagugrilu disse...

No último jantar de turma do 12.º ano, dia de festa e de concerto de Jorge Palma, desci a escadaria do restaurante de cu. Sim, todos os degraus. Porque as escadas eram exteriores e chovia como o caraças, o atrito para me parar só foi o suficiente no fim dos 20 e tal degraus.

Escusado será dizer que toda a minha turma se ria de mim, por estar bêbedo, por estarem bêbedos e por eu ter armado um heróico tralho. Eis senão quando Deus faz com que Jorge Palma ele próprio (mais bêbedo que eu, claro) ponha o pé no primeiro degrau e escorregue, imitanto-me numa clara falta de inspiração para quedas. Veio parar exactamente ao mesmo sítio que eu.

Aí, o que foi uma queda vergonhosa passou a ser motivo de orgulho. "Eu caí no mesmo sítio que o Jorge Palma, mas atenção, caí primeiro e ele imitou-me a seguir"