16 de maio de 2008

RUAS ESTRANHAS DE LISBOA I

Lisboa tem quase 3 500 arruamentos, entre adros, alamedas, altos, arcos, autoparques, avenidas, azinhagas, bairros, becos, boqueirões, cais, calçadas, calçadinhas, caminhos, campos, campus, caracóis, casais, circulares, corredores, costas, cruzes, cunhais, encostas, escadarias, escadas, escadinhas, escolas, estradas, jardins, largos, outeirinhos, paços, paradas, parques, pátios, poços, praças, pracetas, rampas, regueirões, rochas, rossios, rotundas, ruas, sítios, telheiros e travessas. E melhor do que isto, Lisboa tem uma pessoa que aproveita uma constipação de dois dias em casa e vai ver todos os tipos de arruamentos possíveis: eu.

Aqui inicio a nova rubrica Ruas Estranhas de Lisboa. Tcharã! É totalmente aberta a participações de qualquer um dos colaboradores e visa apresentar receitas inovadoras de bacalhau. Não. Estou a brincar... É mesmo ruas de Lisboa com nomes estranhos...

E aqui vou eu. O problema de hoje são as ruas com nomes estrangeiros.

Em primeiro lugar a Rua Eduardo Schwalbach. Rua situada em Benfica que se inicia na Rua da Casquilha e acaba na Rua Comandante Augusto Cardoso.

Não é que a rua tenha assim uma coisa muito estranha. É só um nome de pessoa, neste caso de Eduardo Frederico Schwalbach (1860-1946), português de origem alemã, lisboeta, jornalista e dramaturgo.

O estranho mesmo é alguém morar nesta rua e conseguir explicar onde mora. Imaginem o Sr. Pires na Repartição de Finanças:

- Já tenho o seu BI e as duas fotos tipo passe. Preciso, então, da sua morada.
- Muito bem, Rua Eduardo Schwalbach, lote 456, 4.º Frente.
- Rua Eduardo Esvalquê?
- Schwalbach.
- Ah, Esvalbaque. Muito bem. Até à próxima, apareça sempre.

E lá vai o senhor dos correios dizer: "Ora cá está mais uma para a Eduardo Esvalbaque. Ó Lino, põe mais esta no monte das ruas que não existem."

O mesmo se passa com a Rua Issan Sartawi (1924-1983) também em Benfica. Começa na Rua da Venezuela e acaba na Estrada da Circunvalação, mesmo no fim do mundo de Lisboa. O sr. Sartawi foi um líder palestino assassinado no Algarve, também por palestinos. Mal sabiam eles que assassinando-o estavam a condenar umas dezenas de lisboetas a repetirem enfastiadamente frases como "Sim... Issan, com dois S's e an no fim." ou "Sartawi com duplo vê", para depois verem as suas cartas serem endereçadas para a Rua I de Sanssar Taui que não existe.

Por fim (e no fim é que normalmente vem o melhor) reservei-vos uma pérola. O melhor arruamento de Lisboa em termos de dificuldade de pronúncia. Nem lhe chamaria "dificuldade de pronúncia", mas sim "impossibilidade de pronúncia".

Trata-se da Rua Prof. Georges Zbyszewski (1909-1999), geólogo de ascendência russa, de nacionalidade francesa, mas viveu quase toda a vida em Lisboa. A rua fica em Carnide, entre a Rua António Quadros e a Rua Prof. Jorge Campinos e foi-lhe dado este nome em 2005.

O senhor faleceu em 1999, e durante 6 anos procurou-se uma rua sem nome para o homenagear. Mas não podia ser uma qualquer. De acordo com a Comissão Municipal de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa teve-se "o cuidado de escolher um arruamento sem numeração de polícia [i.e. que não viva lá vivalma] para evitar erros de pronúncia ou de escrita de endereço no topónimo." Evitar erros de pronúncia ou de escrita é coisa que deve acontecer muito com nomes com 10 letras, mas apenas 2 vogais.

Vá lá, desta vez a coisa foi bem feita. E ainda bem que não vive lá ninguém, porque antes da rua se chamar Prof. Georges Zbyszewski era conhecida por Arruamento Transversal ao Impasse 6 à Rua Fernando Namora. Devia ser chato.

(conversa em 2005)
- "Eu moro na Avenida de Roma e tu?"
- "Ah, eu moro em Carnide..."
- "A minha avó também lá mora, no Largo da Luz. És de lá perto?
- "Não. Eu cá comprei uma vivendinha no Arruamento Transversal ao Impasse 6 à Rua Fernando Namora, mas não tenho muitos vizinhos. Acho que me vão mudar o nome da rua para Rua Prof. Georges Zbyszewski, para simplificar."
- "Ah... Então se calhar qualquer dia mando-te um postal. Zbyszewski é com z ou com s no meio?"
- "É com os dois."
- "Ok. Até à próxima."
- "Espera, espera. Não te esqueças que Georges é com S no fim."

PS - Existem mesmo arruamentos como Autoparque Roma, Bairro Novo, Campus de Campolide, Caracol da Graça, Casal de Colares, Corredor da Torrinha, Costa do Castelo, Cruz de Santa Helena, Cunhal das Bolas, Encosta das Chagas, Escolas Gerais, Paço da Rainha, Poço do Borratém, Rocha do Conde de Óbidos e Sítio do Calhau. Existe também um único arruamento sem nome de rua, travessa, etc: chama-se apenas Triste Feia, e fica na freguesia dos Prazeres, ali no final da Rua das Janelas Verdes perto do Paradise Garage. Ah, e é mesmo Cunhal das Bolas, não me enganei nem vos estou a endrominar.

4 comentários:

tiagugrilu disse...

Brilhante.

Anónimo disse...

Caro João Gameiro
Gostei do seu trabalho.
Juro que não sabia existir tantas Ruas em Lisboa.
Veja lá eu que estava a escrever uma Rua por dia, quantos anos me restam para chegar ao fim?
Os nomes RAROS ou ESTRANHOS existem muitos, infelizmente temos que viver com eles!
Já me esquecia de dizer que também sou caranguejo, só com mais 50 anos em cima do "crustáceo".
Um abraço e felicidades
APS

APS disse...

Caro Amigo João Gameiro

Queria enviar um comentário mas não consigo entrar...porque será?
APS

APS disse...

Caro João Gameiro
Apreciei bastante o seu trabalho. Não sabia que existiam tantas ruas em Lisboa.
Eu estou a escrever a História das ruas de Lisboa (as que têm) se calhar não chego ao fim...
Quanto aos nomes raros ou estranhos existem muitos, mas devemos aceitá-los.
Já me esquecia de dizer, também sou caranguejo, só que tenho mais 50 anos.
Um abraço e felicidades
APS